Ação reúne casais de baixa renda e familiares em cerimônia na praia da ilha, ao pôr do Sol, e integra modelo de uso público com contrapartida social
“Eu vi o anúncio e falei: ‘é a nossa chance de casar na praia!’” A frase da noiva Elaine Ferreira resume o significado de um dia que marcou não apenas uma cerimônia, mas a realização de um sonho. “A gente se conheceu de forma simples, ele foi fazer um serviço no meu trabalho… E hoje, exatamente um ano depois, estamos aqui, casando. Me inscrevi, mandamos tudo e fomos aprovados”, conta.
A cena aconteceu no Parque Estadual da Ilha Anchieta, em Ubatuba, litoral norte paulista, onde oito casais oficializaram a união em uma cerimônia coletiva realizada na praia principal da unidade, ao pôr do Sol e acompanhados por familiares. A iniciativa foi promovida pela Fundação Florestal, vinculada à Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística do Estado de São Paulo (Semil).
A ação integra um edital inédito de chamamento público voltado à promoção de iniciativas socioambientais e ao incentivo ao uso sustentável das unidades de conservação. Na prática, o projeto amplia o acesso a direitos civis e oferece a famílias de baixa renda a oportunidade de vivenciar uma cerimônia estruturada, muitas vezes inacessível.
“Está tudo muito lindo… a decoração, o buquê, o cuidado com cada detalhe. Eu acho essa oportunidade muito importante para pessoas que não têm como pagar um casamento desse nível. É uma chance única”, reforça Elaine.
Organização
A celebração contou com uma estrutura completa para os noivos, incluindo cerimonialista, produção e apoio logístico da equipe da Fundação Florestal e da Green Haven Ilha Anchieta, empresa responsável pela operação dos serviços de uso público na unidade após processo licitatório.
Para Elen Eugênio, assistente administrativa da Green Haven Ilha Anchieta, iniciativas como essa ampliam o papel da unidade para além do turismo tradicional. “Eventos como esse ajudam a ressignificar a história da Ilha, transformando o espaço em um lugar de encontros, histórias e significados. Além disso, têm um impacto positivo na população local, ao gerar oportunidades para prestadores de serviço e fortalecer o vínculo da comunidade com o Parque”, diz.

Parceria
O modelo adotado pela Fundação Florestal prevê a parceria com a iniciativa privada para qualificar a experiência do visitante, mantendo a gestão pública da unidade e exigindo contrapartidas que gerem benefícios sociais e ambientais.
Segundo Márcio Santos, gerente da Fundação Florestal, a iniciativa vai além da celebração. “Além do casamento que já é uma experiência única, de poder se casar em uma ilha, em um paraíso como esse, a gente também consegue fazer com que a unidade de conservação seja mais conhecida pelo público em geral. A ideia é trazer a comunidade para dentro desse espaço, para que conheça e também contribua com a conservação.”
Ele destaca ainda o caráter social da ação. “Acaba sendo uma ação socioambiental, porque trazemos para um ambiente protegido, pessoas que talvez não teriam acesso a esse espaço para realizar o casamento. Isso também é um benefício social, que faz parte das premissas da Fundação.”

As noivas se prepararam na chamada “Casa de Vidro”, uma das estruturas mais recentes da unidade, enquanto convidados acompanharam a cerimônia em meio ao cenário natural da ilha. Reconhecida pela biodiversidade e pelas águas cristalinas, a Ilha Anchieta vem se consolidando como destino de ecoturismo paulista, ao integrar conservação ambiental e novas formas de uso público. A experiência de visitação inclui ainda a possibilidade de hospedagem em edificações históricas adaptadas, valorizando o patrimônio existente.
O simbolismo da ação se intensifica pelo contraste com o passado. Marcada pelo funcionamento de um presídio, a ilha hoje ressignifica sua história ao se tornar um espaço de convivência, lazer e conexão com a natureza.
“A Ilha Anchieta simboliza essa transformação, não só pelo cenário, mas pelas ações contínuas de reflorestamento, monitoramento e preservação que permitiram essa mudança. É a passagem de um território marcado pelo cárcere para um espaço de vida e experiências”, destaca Rodrigo Levkovicz, diretor-executivo da Fundação Florestal.
Além do impacto ambiental, a iniciativa reforça o papel social das unidades de conservação, ao ampliar o acesso da população a experiências significativas em espaços públicos protegidos.
“Nosso objetivo é consolidar essa iniciativa e realizá-la todos os anos, ampliando o alcance para famílias que muitas vezes não teriam essa oportunidade. A proposta é unir inclusão social, valorização das pessoas e uso sustentável das nossas unidades”, afirma Priscila Saviolo, gestora da Fundação Florestal e uma das responsáveis pela criação do edital.
A realização do casamento comunitário na Ilha Anchieta mostra um dos inúmeros potenciais das Unidades de Conservação como espaços multifuncionais, capazes de aliar preservação ambiental, educação e transformação social.





